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João Távora

Xadrez

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É avisado não desafiarmos o nosso progenitor, pois que assim nos arriscamos a derrotá-lo e dessa forma tornarmo-nos irremediavelmente órfão mesmo que ele viva. Curioso é como, vencendo o filho esse sórdido duelo, é ele quem sai sempre perdedor. Não é da natureza do pai ser humilhado pelo filho, e Sebastião lembrava-se bem do embaraço que sentira, quando pelos seus 13 anos, num dia de Verão, o vencera pela primeira vez num jogo de Xadrez. Por esses dias intermináveis de férias na cidade, matava o tempo desse modo, enquanto em simultâneo, numa sôfrega inquietação, um homenzinho hesitante e risível despontava da criança que Sebastião sempre fora, e na verdade não desejava deixar de ser. O pior foi quando mais tarde, numa noite de vento morno, noutro tenso confronto de Xadrez, notou por acaso que o pai disfarçadamente trocara uma peça de lugar, como que em desespero, ferido no orgulho perante mais uma iminente derrota. O sentimento que a patética cena lhe causara, como que um violento desabamento de alma, tocara-o no magma do seu ser. Sebastião, nome de messias, nunca mais foi o mesmo. O Xadrez é um jogo cheio de simbolismo, uma recriação da guerra, jogo de vida ou morte, em todos os acontecimentos têm como causa única uma decisão racional dos adversários, olhos nos olhos, tête a tête, sem desculpas, sem sorte ou azar. Percebeu isso muito mais tarde. Pode-se sempre nascer e viver sem partes de gente que parecem essenciais, mas acontece que crescendo elas connosco, jamais se podem arrancar sem irreparável dano. Não, Sebastião jamais derrubara o seu pai, que acabou por perdurar para lá da sua morte precoce, numa fundamental parte de si.

 

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